15.6.05

Maleta preta

Praça de alimentação. Um dos lugares com a pior acústica do universo: gritaria e risos de estudantes, fofocas de madames e um som ao vivo de matar. Somente os amantes falavam baixo naquele lugar. Ele estava sentado e finalmente comia, apressado. Seu horário de almoço era corrido e estava cheio de compromissos. Nesses shoppings muito lotados, costuma-se dividir mesas. Ele detestava essa necessidade, principalmente quando cotovelos de estranhos o tocavam. Passava seus contados vinte minutos com o mantra: por favor ninguém sente aqui, por favor ninguém sente aqui, por favor ninguém sente aqui.
- Posso me sentar aqui?
Perguntou um velho de terno. Cabelos muito pretos e oleosos. Cordão, pulseira e um dente de ouro. Maleta na mão.
- Claro.
O velho sentou-se. Ficou olhando para ele. Os olhos imploravam por conversação. Ele não olhou. Comeu concentrado no prato, como um peão.
- Você se importa de olhar a minha mala por um minuto?
Na verdade ele se importava. Um minuto era uma fração importante do seu almoço.
- Absolutamente.
E lá se foi o velho. E ali estava: uma mala preta a sua frente. E 10 minutos se passaram. E mais cinco. Seis, sete, oito, nove, dez. E nada do homem. E ali estava a mala.
- Tic, tac, tic, tac.
Larga a mão de ser imbecil, não tem uma bomba aí dentro, pensou. Vou embora, não tenho nada a ver com esse homem e tô atrasado. Pô mas é um velho. Começou a transpirar e a procurar pelo homem com o olhar. Nada. Não queria se importar, mas não era bem uma preocupação, era mais curiosidade. Sua vida passava tão rápido mas tão devagar. Seria bom ter alguma história pra contar.
- Essa mala é sua meu filho?
Perguntou uma velha. Maquiada, bem vestida e com o cabelo ralo preso num penteado extravagante.
De onde veio essa velha, pensou.
- Não é não senhora, estou olhando ela para um senhor. Estou muito atrasado e preciso ir embora, a senhora o conhece?
A velha sorriu e foi embora.
Putamerda que situação que é essa? e que sorriso sinistro foi esse? o que fazem esses velhos no shopping? e que mala é essa? essa velha me deu arrepios. Sempre tive medo de velhas. Essa mala começou a feder. E se tiver alguma coisa morta dentro? E esse barulho de relógio? Essa mala vai explodir. E se eu morrer não vai ter história pra eu contar. E se estiver cheia de dinheiro? Esses velhos estão muito arrumados, devem sem ricos. E se eu fugir com a mala? Mas e se eles tiverem seguranças? Aí eles me prendem. E se for uma pegadinha? Vou preso de todo jeito, roubo é roubo, na televisão ou não. Não posso ir pra cadeia, sou bonito demais. Vão querer me desvirginar e eu não vou deixar. Vou acabar morrendo. Essa mala vai me matar de qualquer jeito.
- Muito obrigada.
Disse o velho, interrompendo seus pensamentos.
- Desculpa esse meu velho, filho. Ele tentou ir ao banheiro e acabou se perdendo. Acontece sempre.
Disse a velha sorrindo amorosamente e dando um beijo no velho.
Entregou a mala para o simpático casal e foi embora pro trabalho.

Preferia ter morrido.

4 Comments:

Anonymous Rodrigo said...

Lírico, lírico...

12:36 PM  
Blogger Lucinha Horta said...

Já te falei que sou sua fã?
Se não falei, então eu vou gritar..
EU SOU VIU! BERJOSSSSSSSS!!!!!!

8:31 PM  
Blogger Lucas Viggiani said...

Uhrra que contão! Muito bom, mas que vontade de morrer é essa Lu? huahuahuahuahauhuah....

1:35 PM  
Blogger Luiza Voll said...

Quero morrer não, Muito antes pelo contrário!!!! Meus personagens é que querem! não me pergunte o porque...

3:51 PM  

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